sábado, 20 de fevereiro de 2016

A Cidade como objeto de estudo: conceções e correntes de pensamento sobre as cidades - 4 - A Escola de Chicago

          1. Os Utopistas
              Thomas More, Robert Owen, Charles Fourier, Jean Baptiste Godin,
              James Silk Buckingham, Benjamin W. Richardson, Ebenezer Howard
          2. O pensamento alemão
               1ª Geração: Max Weber e Werner Sombart
               2ª Geração: Georg Simmel e Walter Benjamin
          3. O pensamento em Inglaterra
              Desenvolvido por pensadores alemães em Inglaterra: Karl Marx e Friedrich Engels
          4. A Escola Americana - Chicago
              Robert Park, Ernest Burgess, Louis Wirth
          5. O pensamento francês
              Henri Lefebvre e Manuel Castells
          6. Escola America - Los Angeles
              Michael Dear
  


Migração do pensamento urbano da Europa para os EUA – 2 condições essenciais:
  • Crescimento exacerbado das cidades americanas, que criava as condições para o desenvolvimento teórico;
  • Época de guerra mundial – a Europa entrou em guerra, de 1914 a 1918, o que diminui as condições para a produção científica.
Chicago – 1ª corrente de pensamento urbano nos EUA, nos anos 1920. Debatia-se com o problema da definição de cidade. Como se define uma cidade? É por oposição ao campo? Ou por oposição a pequenas localidades?


Robert Park (1864-1944)
Robert Ezra Park foi um sociólogo norte-americano e um dos mais eminentes pensadores da Escola de Chicago. Era também jornalista e geógrafo. 
Depois de lecionar algumas disciplinas na Universidade de Chicago, sobre os acontecimentos na cidade, passou algum tempo na Europa, onde assistiu a aulas de Georg Simmel. Ao voltar aos EUA, dedicou-se aos estudos urbanos e à organização de um curso que viria a ser conhecido como Escola de Chicago.
Além de Simmel, Robert Park foi muito influenciado por Ebenezer Howard (1850-1928) e pelo seu modelo das cidades-jardim. Assim, passou a defender que o fenómeno urbano deveria ser abordado com base numa ecologia humana.
 
 

Diagrama N2 - Cidade-Jardim
O esquema mostra a distribuição geral da Cidade-Jardim, concebida por Ebenezer Howard (1996 - 1a edição 1898). A cidade deveria ter uma estrutura radial, com 6 grandes avenidas em direção ao centro. Mostra os primórdios da divisão de usos e da adoção de baixas densidades. Fonte: HOWARD, Ebenezer. Cidades-Jardins de amanhã. São Paulo: Hucitec, 1996. http://urbanidades.arq.br/bancodeimagens/displayimage.php?album=5&pos=2

As “cidades-jardim” são concebidas como cidades planeadas, com comunidades equilibradas de residentes, rodeadas de cinturas verdes e albergando áreas habitacionais, de indústria e agricultura devidamente articuladas. A cidade-jardim representa uma nova filosofia de cidade. A ideia subjacente era a de que a sociedade humana e a beleza da natureza devem coexistir em proximidade.
A tese de Howard enuncia o efeito de magnetismo dos centros urbanos sobre as populações (da “cidade” e do “campo”), convergindo num mix que é a própria “cidade-jardim”.
 



Ebenezer Howard - Os três magnetes
Mostra as três "forças" de atração da população: o campo, a cidade, e a cidade-jardim, que seria capaz de conjugar as vantagens dos dois primeiros, sem suas desvantagens.  Traduzida e redesenhada por Fernanda Tomiello (2009) http://urbanidades.arq.br/bancodeimagens/displayimage.php?album=5&pos=17

Para Robert Park, as cidades podiam ser vistas como organismos vivos, como plantas que crescem e se expandem, definham e morrem. Segundo Park “Sabemos que as comunidades urbanas nascem, se desenvolvem, se espraiam por algum tempo, até se encolherem novamente. As sociedades humanas são como comunidades botânicas”.
A Escola de Chicago foi também uma escola de ecologia urbana, uma vez que, ao aplicarem os princípios teóricos da ecologia vegetal e animal às comunidades humanas, os seus pensadores procuraram explicar o uso seletivo que os grupos humanos fazem do espaço urbano:
"Em similitude com as sociedades humanas, os sociólogos norte-americanos Park e Burgess usaram pela primeira vez, em 1921, a expressão "ecologia humana", justamente com o sentido de explicarem os comportamentos dos grupos humanos de acordo com idênticos comportamentos dos animais e vegetais em relação ao ambiente em que se inscrevem. Foi Park quem instituiu a teoria da relação causal entre distância social e distância física: o que está em causa é fundamentalmente, neste período, a existência de uma sociologia do espaço a partir da qual as diferenças sociais entre grupos podem ser "medidas" (1974, Duchac - La sociologie des migrations aux États-Unis. Paris: Mauton). Segundo esta teoria, os grupos diferenciados ocupam as parcelas do espaço - numa ordem de importância étnica, social e económica - em processo conflituoso, de acordo com a capacidade que uns têm para se sobrepor aos demais, levando tal circunstância ao domínio de uns sobre outros ou, em alternativa, à assimilação progressiva dos mais fracos pelos mais fortes." (Porto Editora, 2003-2016)
 
 


Ernest Burgess
Ernest Watson Burgess (16 de maio, 1886 - 27 de dezembro, 1966 ) foi um sociólogo urbano canadiano nascido em Tilbury, Ontario. Estudou na Kingfisher College, em Oklahoma e continuou os seus estudos de pós-graduação em sociologia na Universidade de Chicago. Em 1916, regressou à Universidade de Chicago, como docente . Burgess foi também o 24º presidente da Associação Americana de Sociologia ( ASA).
Apresentava a cidade como um conjunto de anéis concêntricos. Ao contrário da cidade medieval e barroca (que crescia de fora para dentro), a cidade apresentada pela Escola de Chicago crescia de dentro para fora. A solução para o crescimento das cidades passou pela saída das classes médias do centro para os subúrbios.
 

 
 
 
Ernest Burgess usou um mapa para descrever a organização sócio-espacial de Chicago. A linha compacta de norte a sul marca a linha costeira, com Chicago à esquerda e o Lago Michigan à direita. Os vários anéis concêntricos dividem a cidade em zonas concêntricas. 
Para Burgess, estas zonas concêntricas eram características comuns a todas as cidades e não apenas visíveis em Chicago.
Cada zona tinha um caráter específico:
 


Com base nos fundamentos da ecologia humana – em particular na teoria e competição pelo espaço – Burgess explica a distribuição espacial de residências, bairros, indústria e comércio.
  • A competição pelo espaço gera determinados espaços diferenciados e determinada organização social nesses espaços – representados pelas zonas concêntricas;
  • O centro da cidade, caracterizado pela abundância de atividades sociais, culturais e económicas, é dominado por aqueles que dispõem de recursos suficientes para poderem lá viver.
  • Os outros indivíduos, com menos recursos, fixam-se em áreas circulares perto do centro da cidade.
  • Burgess tenta ainda mostrar como as características da organização da população urbana estão inscritas no espaço – crime, delinquência, violência e conflitos entre gangs, tensões raciais e outros problemas sociais foram identificados em áreas urbanas degradadas, por exemplo, na área em transição (Zona II).
    http://citywiki.ugr.es/wiki/Urban%C3%ADstica_1_grupo_A_curso_08/09/MARIAGARC%C3%8DABARRERA/Mirar/Chicago_Burgess
Apesar do caráter inovador do modelo de zonas concêntricas, este não deixou de ser alvo de críticas:
  • O modelo constituía uma representação tipo da cidade moderna. Contudo, estudos desenvolvidos na área viriam a questionar a sua dimensão universal, assim como a sua aplicabilidade a qualquer cidade dos EUA. Muitos autores defendiam que a cidade industrial, ao contrário do proposto por Burgess, era constituída por vários centros.
  • Crítica ao aspecto biológico (sobrevivência dos mais aptos) como um factor determinante na teoria ecológica da cidade, que tende a relegar para segundo plano as questões culturais e sociais.

 
Louis Wirth (1897-1952)
Louis Wirth (Gemünden, 28 de agosto de 1897 - Buffalo, 3 de maio de 1952) foi um sociólogo alemão, membro proeminente da Escola de Chicago.
Louis Wirth propôs uma abordagem diferente sobre as questões urbanas. Questão fundamental: saber o que existe de específico na cidade que produz aquilo a que se poderia chamar de estilo de vida urbano. 
Foi influenciado pelo trabalho de Simmel, mas viria a afastar-se deste. Enquanto Simmel pretendia entender a vida urbana à luz das forças sistémicas do capitalistmo e, em particular, da economia monetária, Wirth centrou-se no estudo das características das pessoas que viviam na cidade e no modo como as vivências na cidade produziam uma cultura distinta – a cultura urbana.
O urbanismo, ou o estilo de vida urbano, é concebido como um “complexo de traços que configuram o modo de vida típico das cidades”. Ao interpretar a vida social urbana, Wirth desenvolve uma teorização pioneira e sistemática da cidade.
Hipótese central: as mudanças nos modos de vida urbana deviam-se a três fatores principais:
 
1. Dimensão agregado populacional: 
  • Só faz sentido chamar cidade a um conjunto urbano a partir de uma dada dimensão/ escala;
  • Provoca a diversificação e a individualização;
  • Aumenta a competição entre indivíduos;
  • Anonimato, superficialidade e utilitarismo nas relações interpessoais.
2. Densidade: 
  • Não basta que a cidade seja extensa, tem de ter densidade de relação. Uma teia de interações intensas entre sujeitos diferentes entre si. 
  • A densidade intensifica os efeitos da dimensão do agregado populacional;
  • Intensificação da atitude blasé;
  • Maior capacidade para viver com desconhecidos.
3. Heterogeneidade: 
  • A cidade alberga a diferença; traz o «nós» em relação aos «outros»;
  • Quanto maior a heterogeneidade, maior a tolerância entre grupos;
  • Intensificação do anonimato.
Regresso ao princípio: esta definição da cidade é feita por oposição ao campo. Campo como dimensão relacional da cidade. Na urbanização americana ainda fazia sentido a discussão sobre o campo: a América ainda se estava a industrializar. Nunca tinha sido feita uma definição como esta do que era uma cidade.
Os efeitos deste conjunto de fatores poderiam ser analisados estatisticamente, conferindo à teoria de Wirth a capacidade de previsão de determinados resultados. Por exemplo, numa amostra de cidades, quanto mais altos fossem os valores obtidos nos três fatores, maior seria a possibilidade de estarmos perante uma verdadeira cultura urbana.

No seu texto "O urbanismo como modo de vida", publicado originalmente em 1938, Louis Wirth discutia o grau de influência das cidades no mundo seu contemporâneo e argumentava que aquelas não eram somente o lugar de habitação e trabalho dos indivíduos modernos mas “o centro que põe em marcha e controla a vida económica, políica e cultural”. Por essa razão, concluía, há mais de seis décadas, que o “crescimento das cidades e a urbanização do mundo são dos fenómenos mais impressionantes dos tempos modernos” (Wirth, 2001 [1938]: 45).
Tal como Simmel, Wirth não se apresentava otimista relativamente à vida na cidade. Esta era caracterizada pela erosão das relações primárias – as quais tendiam a ser substituídas por relações secundárias, utilitárias e impessoais.
 
SÍNTESE - Alguns contributos fundamentais da Escola de Chicago:

1. Os trabalhos desenvolvidos por estes sociólogos articularam, pela primeira vez, de forma explícita, os padrões da organização social com a dimensão espacial – o espaço socialmente construído.
2. As pesquisas baseavam-se na observação direta de interações sociais, a partir das quais se pretendia identificar as novas formas de organização social.
3. As preocupações com o modo como a vida urbana conduzia à desorganização social e a novas patologias individuais foram responsáveis pela investigação exaustiva de comunidades marginalizadas, assim como dos padrões de adaptação exibidos por indivíduos, grupos e comunidades ao espaço urbano.
4. Envolvimento direto dos seus membros no planeamento e nas políticas urbanas. Estes acreditavam em ideais democráticos e na necessidade de reformas sociais que tornassem possível a melhoria das condições de vida urbana – evitando a desagregação social característica da cidade de Chicago, em particular, e das grandes metrópoles em geral.
 
Para os membros da Escola de Chicago, a cidade moderna era concebida como um lugar de desorganização social, de conflito e de constante luta pela sobrevivência. Esta conceção da cidade viria a influenciar, de forma determinante, as investigações desenvolvidas no âmbito da sociologia urbana.
 
 
Bibliografia:
 
FREITAG, Barbara (2006), Teorias da cidade. Campinas (SP): Papirus.
GOMES, Carina (2013), Cidades e Imaginários Turísticos: Um estudo sobre quatro cidades médias da Península Ibérica. Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra: Tese de Doutoramento em Sociologia - Cidades e Culturas Urbanas.
HORTA, Ana Paula (2007), Sociologia Urbana. Lisboa: Universidade Aberta.
MELA, Alfredo (1999), A Sociologia das Cidades. Lisboa: Estampa.
RÉMY, Jean; VOYÉ, Liliane (1994), A cidade: rumo a uma nova definição?. Porto: Afrontamento.
WIRTH, Louis (2011) [1938], “O urbanismo como modo de vida”, in Carlos Fortuna (org.), Cidade, Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia. Oeiras: Celta Editora, 45-65.
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