E depois da Slow Food... a Slow Science

Depois da Slow food, das Slow cities, do Slow travel/ tourism, do Slow sex, do Slow money, dos Slow books, da Slow schools e, em suma, do slow living, ao slow movement junta-se agora a slow science.

No seu sítio eletrónico e na sua página do facebook, a Slow Science Academy dá conta do seu manifesto:


"We are scientists. We don’t blog. We don’t twitter. We take our time.

Don’t get us wrong—we do say yes to the accelerated science of the early 21st century. We say yes to the constant flow of peer-review journal publications and their impact; we say yes to science blogs and media & PR necessities; we say yes to increasing specialization and diversification in all disciplines. We also say yes to research feeding back into health care and future prosperity. All of us are in this game, too.

However, we maintain that this cannot be all. Science needs time to think. Science needs time to read, and time to fail. Science does not always know what it might be at right now. Science develops unsteadily, with jerky moves and unpredictable leaps forward—at the same time, however, it creeps about on a very slow time scale, for which there must be room and to which justice must be done.

Slow science was pretty much the only science conceivable for hundreds of years; today, we argue, it deserves revival and needs protection. Society should give scientists the time they need, but more importantly, scientists must take their time.

We do need time to think. We do need time to digest. We do need time to mis­understand each other, especially when fostering lost dialogue between humanities and natural sciences. We cannot continuously tell you what our science means; what it will be good for; because we simply don’t know yet. Science needs time.

—Bear with us, while we think."

www.slow-science.org
O manifesto pronuncia-se, sobretudo, sobre a velocidade a que é esperado que se faça ciência, seja ela natural ou social, nas sociedades atuais. Acompanhando o ritmo frenético que supostamente caracteriza a vida quotidiana pós-moderna, as ciências deverão produzir resultados na mesma medida de velocidade. 
Seguindo os princípios gerais do slow movement, a Slow Science Academy não se opõe à forma acelerada como se faz ciência no início do século XXI, nem às constantes avaliações - esta parece ser uma palavra chave, avaliação - do mérito científico que têm as publicações em revistas, nacionais ou internacionais, com sistema de revisão por pares, nem, ainda, à crescente diversificação e especialização das diferentes disciplinas científicas. Ainda assim, a Academia vem defender que a ciência, e os cientistas, precisam de tempo. O mesmo é dizer, parece-me, que nem sempre é possível ajustar os critérios de avaliação científica, criados pelas instituições financiadoras, com todos os seus indicadores numéricos e ponderações relativas, à forma como efetivamente, na prática, se produz ciência.
Este desfasamento é especialmente relevante, do meu ponto de vista (naturalmente enviesado!), quando se trata de fazer investigação para a obtenção do grau de doutor. Espera-se, hoje em dia, em Portugal, que os jovens investigadores façam trabalho de campo e escrevam as suas teses em dois ou três anos e penalizam-se, simultaneamente, aqueles que, além de irem trabalhando nas suas investigações, aliam a essa tarefa a docência.
Aquilo que em tempos constituía o culminar de uma carreira científica e académica passou, entretanto, a ser encarado como o início dessa carreira e, em alguns casos, cada vez mais frequentes, como uma fuga rápida para o processo seguinte - o pós-doutoramento.

Tal como as Cidades Lentas procuram ser refúgios para o frenesim da vida moderna, também a Slow Science Academy procura criar uma maior sensibilidade para a lentidão muitas vezes necessária à produção do conhecimento científico. Será de esperar que, como argumentei antes sobre a eventual falência do projeto das Cidades Lentas, a Slow Science não acabe também por ser vítima do seu próprio sucesso.

Criada há menos de um ano, em Berlim, a página do facebook da Slow Science Academy conta já com mais de 2.500 gostos. Aí podem encontrar-se contributos, reflexões e também críticas de alguns cientistas, nomeadamente no que se refere a uma contradição ligada à atitude perante as novas tecnologias da comunicação e o crescente protagonismo das redes sociais, implícita nas linhas iniciais do manifesto:

"We are scientists. We don’t blog. We don’t twitter. We take our time."


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3 comentários:

  1. Gosto da ideia... Acho que podemos pensar a cidade e nossas práticas cotidianas como viajar, comer, trabalhar, ler e amar etc. na óptica de uma slow living. A ciência não pode ser lenta como se praticássemos o ócio criativo. Mas obrigações em publicar, participar de congressos e ensinar que os doutorandos tem geram ritmo mais acelerado, por outro lado abrem oportunidades para que, lentamente, possamos seguir a vida de docente-pesquisador. Mas esse "lento" às vezes é bem ambivalente.

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  2. Obrigada pelo contributo, Eder. Eu também gosto da ideia de uma vida mais lenta. Concordo contigo quando dizes que a ciência não deve ser praticada como se se tratasse de um ócio criativo.
    Ainda assim, creio que vivemos hoje uma fase em que não só temos que escrever apressadamente, como ainda tudo o que escrevemos é traduzido em avaliações numéricas e indicadores de produtividade. Isso sim, parece-me prejudicial à produção de conhecimento até porque sabemos que, por vezes, precisamos de distância em relação ao objeto para depois conseguirmos ver com mais clareza aspetos que nos escapavam.

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  3. Concordo contigo Carina. Você cita dois aspectos que me incomodam atualmente: avaliações númericas e de produtividade. É uma atribuição bastante quantitativa para nossa produção que poderia ser medida pela qualidade do trabalho de pesquisa que presume essa distância em relação ao objeto, tempo para leitura e escrita, tempo para amadurecimento de um projeto. Preocupa-me essa pressa...

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