quinta-feira, 29 de março de 2012

O Slow Movement e as Cidades Lentas


A ideia de que as cidades podem, hoje, ser espaços de lentidão parece estar em voga, para além de reunir, pelo mundo fora, cada vez mais admiradores.

“Porque terá desaparecido o prazer da lentidão? Ah, onde estão os deambuladores de outrora? Onde estão esses heróis indolentes das canções populares, esses vagabundos que preguiçam de moinho em moinho e dormem ao relento? Terão desaparecido com os caminhos campestres, com os prados e as clareiras, com a natureza?” (Milan Kundera, A Lentidão, 2001: 7)


Contrastando com o ritmo frenético moderno, a que habitualmente se associa a vida nas metrópoles globais, provocado em grande medida por aquilo que David Harvey designou como contração espácio-temporal da realidade, algumas cidades, nomeadamente as de pequena ou média dimensão, surgem agora associadas à tranquilidade e lentidão da vida quotidiana que, face à velocidade dos tempos modernos, parecem ser cada vez mais valorizadas. Na verdade, essa lentidão é muitas vezes olhada com nostalgia, no sentido em que Milan Kundera fala dela.
As chamadas Cidades Lentas exemplificam bem esse sentimento nostálgico, ao mesmo tempo que demonstram a recente valorização da lentidão enquanto modo de vida urbano. As Cidades Lentas estão integradas num movimento mais vasto, o Slow Movement, que surgiu como reação à fast food. Conta a história que o movimento terá surgido quando a cadeia alimentar Mac Donald's se preparava para abrir um restaurante em Roma. Itália é, assim, considerada a pátria do movimento que ultrapassa em muito, agora, a comida ou mesmo as cidades. 
Inspirando-se na frase de Confúcio "Não importa quão devagar vais, desde que não pares", o movimento propõe que a vida seja vivida com base em:

Fonte: http://www.cittaslow.org/
Slow food
Slow cities
Slow travel/ tourism
Slow sex
Slow money
Slow books
Slow schools
Em suma... slow living.




O slow movement aceita a mudança das sociedades e a inevitabilidade dessas mudanças. No entanto, defende que as necessidades básicas das pessoas permanecem inalteráveis ao longo dos tempos. E, nessa medida, a satisfação dessas necessidades básicas é mais fácil se se conseguir dosear a velocidade da vida moderna com alguma lentidão.
Em 1999, foi criado o Instituto Mundial da Lentidão, com o objetivo de promover uma consciência lenta por todo o mundo, prevendo alternativas à velocidade e à rapidez que, supostamente, caracterizam a vida atual - promovendo aquilo que o próprio instituto chamou de Revolução Lenta. A lentidão surge, assim, como reação ao global e como defesa de todas as expressões tradicionais locais.
Aplicado às cidades, o movimento traduz-se no lema de La Dolce Vita, procurando que as Cidades Lentas constituam refúgios para o frenesim da vida moderna. Qualquer cidade que pretenda integrar o slow movement deve seguir uma série de princípios enunciados no Manifesto das Cidades Lentas. Uma cidade lenta não deverá ter mais do que 50.000 habitantes, sendo portanto, uma cidade pequena, e deverá fomentar políticas no sentido da diminuição do ruído na cidade, controlo do tráfego, aumento das zonas pedonais e defesa dos seus produtos locais. Não negando a influência da modernidade, o objetivo das slow cities é o de aliarem o melhor de dois mundos – o moderno e o tradicional. Há que referir, ainda, que o movimento beneficia das tendência de evolução demográfica que caracterizam algumas cidades e que se traduzem num envelhecimento generalizado da população.
Bra e Greve in Chianti, em Itália, foram as duas primeiras Cidades Lentas. Em Portugal, as cidades de Lagos, São Brás de Alportel, Silves, Tavira e Vizela já aderiram a este movimento. Em 2009, foi mesmo criado o Slow Movement Portugal. De acordo com esta nova Associação:
"A categoria ‘Slow City’ constitui um selo de qualidade e uma marca que funciona tanto como uma distinção, como também como um compromisso e um ponto de referência para habitantes, turistas e investidores que esperam da cidade credibilidade no que diz respeito a sustentabilidade para as pessoas e para a natureza. “Destas cidades querem-se comunidades com identidade própria, identidade esta que seja reconhecida por quem chega e profundamente sentida por quem dela faz parte . Cultiva-se aqui o sentido de ligação entre os produtos e os consumidores, entre pessoas e meio ambiente protegido, entre residentes e visitantes (que se devem sentir residentes durante a estadia)."

Este movimento acaba por constituir uma estratégia ou um modelo de cidade, como muitos outros que existiram antes, nomeadamente, o das cidades-jardim. No entanto, e por um lado, este encontra grandes obstáculos, porque, apesar das visões idílicas que apresenta para as cidades, nem sempre é possível abrandar. Ou nem sempre é esse o desejo das pessoas. Por outro lado, não deixa de ser curioso que uma verdadeira Cidade Lenta será vítima do seu próprio sucesso: na medida em que a promessa de uma vida mais lenta e agradável atrai turistas e visitantes - e porque o próprio movimento das Cidades Lentas promove estas cidades como destinos turísticos - esses mesmos turistas e visitantes acabarão por invadir a cidade com velocidade, ruído e confusão… o que não é nem mais nem menos do que o oposto de uma cidade lenta.