domingo, 7 de fevereiro de 2016

A Cidade como objeto de estudo: conceções e correntes de pensamento sobre as cidades - 1 - Os Utopistas

          1. Os Utopistas
              Thomas More, Robert Owen, Charles Fourier, Jean Baptiste Godin,
              James Silk Buckingham, Benjamin W. Richardson, Ebenezer Howard
          2. O pensamento alemão
               1ª Geração: Max Weber e Werner Sombart
               2ª Geração: Georg Simmel e Walter Benjamin
          3. O pensamento em Inglaterra
              Desenvolvido por pensadores alemães em Inglaterra: Karl Marx e Friedrich Engels
          4. A Escola Americana - Chicago
              Robert Park, Ernest Burgess, Louis Wirth
          5. O pensamento francês
              Henri Lefebvre e Manuel Castells
          6. Escola America - Los Angeles
              Michael Dear



Do ponto de vista teórico, um problema partilhado, no pensamento contemporâneo, entre as cidades pequenas e médias reside na conceptualização das suas noções. Na verdade, parece tratar-se, aqui, de uma enfermidade comum não só a este tipo de cidades mas da ideia de cidade em si (Costa, 2002; Roques, 2009). Disciplinarmente, é a Geografia que mais metódica e continuadamente se vem ocupando do problema da definição das cidades pequenas e médias, centrando a análise sobretudo em critérios quantitativos cuja análise e categorização se tem traduzido, no entanto, em discussões nem sempre conclusivas e em sistematizações quase sempre inacabadas, ainda que se postule a necessidade de definição de uma escala teórica de análise distinta da metropolitana.

A preocupação com a delimitação perfeita do número de habitantes para as cidades, bem como a amplitude da variação demográfica mais frutífera para a definição de uma cidade pequena ou média não é, todavia, nova. Era já visível no planeamento das cidades da Grécia Antiga, com os escritos de Platão e Aristóteles a indicarem limites mínimos e máximos para o bom funcionamento das cidades, da cidadania e do Estado (Gomes, 2013).

Em A Política, Aristóteles defende que “é necessariamente muito bela uma cidade onde se encontre a justa medida de grandeza. […] Se uma cidade tiver poucos habitantes, pecará por penúria; se os tiver em excesso, poderá subsistir como nação, se contar com as coisas necessárias, mas já não será uma cidade” (Aristóteles, 1966: 126).

Explica Â. Endlich que, na visão destes dois filósofos, “o melhor critério para limitar a população de uma cidade é permitir [a] sua expansão somente até o ponto em que, assegurada a autossuficiência, seja possível abranger a cidade com o olhar” (Endlich, 2006: 409). Aqui está implícita, portanto, uma imagem de cidade que, para ser perfeita, nem deveria ser excessivamente grande nem demasiado pequena.

Depois de se referir às visões dos dois filósofos gregos, Endlich (2006: 410-411) traça a cronologia daquelas que, no seu entendimento, são as visões idealizadas para as cidades mais relevantes nos últimos séculos ou, nas palavras de Leonardo Benevolo, “as formas alternativas de fixação, descritas pelos utopistas” (Benevolo, 1995: 182):

Thomas More
A sua Utopia, publicada no séc. XVI, funcionaria como um reino imaginário através de uma sociedade justa e perfeita, “um mundo livre de ameaças imprevisíveis” (Bauman, 2007: 100).


http://artsandsciences.colorado.edu/ctp/2014/08/the-utopia-of-thomas-more/

Robert Owen
Projeto do início do séc. XIX para New Harmony, no estado de Indiana. De acordo com textos publicados por Kathleen M. Hogan (2011), na página eletrónica da Universidade de Virgínia, New Harmony representa uma das experiências de utopias menos bem-sucedidas nos Estados Unidos.


https://www.thinglink.com/scene/718211621108842497

Charles Fourier
Planos para o grande prédio falanstério, também do início do séc. XIX. Nas palavras de B. Freitag (2006: 52), o objetivo de Charles Fourier seria o de desestruturar a velha ordem social através dos falanstérios que na sua conceção seriam, simultaneamente, “organizações coesas, bem equipadas e organizadas para a vida e o trabalho coletivos, e construções confortáveis, que abrigariam até 2 mil pessoas”.  


https://teoriadoespacourbano.wordpress.com/2013/03/12/i-fourier-ou-as-passagens/

Jean Baptiste Godin
Inspirado por este modelo de cidade e comunidade do falanstério, Jean Baptiste Godin iniciou, em 1859, a construção do seu familistério, dotado de escola, teatro, lojas, piscina, bar e restaurante, para os mais de 600 operários que chegou a empregar e as suas respetivas famílias. O familistério sustentou-se por mais de 110 anos.

http://utopies.skynetblogs.be/archive/2008/11/23/jean-baptiste-godin-1819-1888-familistere-de-guise.html

James Silk Buckingham
Ainda em meados do séc. XIX, James Silk Buckingham desenhou o seu plano ideal de dez mil habitantes para a cidade inglesa de Victoria. Segundo o Vancouver Working Group Discussion Papers for the World Urban Forum (2005), os planos estritamente geométricos eram característicos de várias propostas elaboradas no séc. XIX que tinham como objetivo a correção de conflitos ou colapsos sociais através de ambientes urbanos bem construídos, cujo exemplo mais representativo é a cidade ideal de Victoria ensaiada por James Silk Buckingham. 

http://web.tiscali.it/icaria/urbanistica/buckingham/buckingham.htm

Benjamin W. Richardson
Concebeu a sua Hygeia, uma cidade para cem mil habitantes onde as condições higiénicas deveriam atingir a perfeição. Na visão de John W. Reps (s/d), o médico Benjamin Ward Richardson terá concedido, na obra Hygeia: A City of Health, datada de 1876, uma atenção mínima à dimensão estética do planeamento urbano, centrando a sua abordagem na definição das condições necessárias às infraestruturas e serviços urbanos capazes de maximizar o grau de saúde dos habitantes da cidade e, por essa via, aumentar a qualidade das suas vidas quotidianas.


By http://wellcomeimages.org/indexplus/obf_images/e4/40/637690204c3042ff2772d3c0ffdf.jpgGallery: http://wellcomeimages.org/indexplus/image/V0011612.html
 
A partir destas contribuições, e citando Lewis Mumford, Â. Endlich refere-se ao problema do ideal demográfico, que sempre constituiu uma preocupação para filósofos e cientistas com interesse nas cidades: “as propostas para cidades ideais quase sempre ficavam entre 25-30 mil habitantes”, refere Endlich (2006: 410), aludindo a uma última proposta, a das cidades-jardim, de Ebenezer Howard.

 
Ebenezer Howard
O modelo das cidades-jardim baseava-se num conjunto de localidades para cerca de trinta mil habitantes geometricamente dispostas em torno de uma cidade central. As cidades-jardim representavam, de facto, uma nova filosofia de cidade em que a ideia subjacente era a de que a sociedade humana e a beleza da natureza devem coexistir em estreita proximidade e harmonia (Howard, 1996; Horta, 2007).


http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.144/4316
 

É, de resto, a busca incansável pela melhoria das condições de vida humanas o fator que Barbara Freitag (2006) identifica como denominador comum das várias utopias imaginadas ao longo dos séculos por filósofos, arquitetos, urbanistas e economistas. Nessas visões, os seus criadores estipulavam, mais do que limites mínimos, balizas máximas ao número de habitantes – valores que, idealmente, não dariam nunca origem a grandes cidades.

Contudo, a ideia de que estas visões constituem utopias urbanas é, ela própria, bastante discutível, na medida em que muitas delas previam a manutenção da escravatura, encaravam com naturalidade o trabalho infantil, planeavam exageradas jornadas de trabalho e pretendiam regular aspetos íntimos do quotidiano humano, como a idade do casamento e até mesmo a regularidade do contacto sexual entre os habitantes (Freitag, 2006).


Bibliografia:
ARISTÓTELES (1966), A Política. São Paulo: HEMUS.
Bauman, Zygmunt (2007), Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
BENEVOLO, Leonardo (1995), A cidade na história da Europa. Lisboa: Editorial Presença.
COSTA, Eduarda Marques da (2002), “Cidades Médias. Contributos para a sua definição”, Finisterra, XXXVII, 74, 101-128.
ENDLICH, Ângela (2006), Pensando os papéis e significados das pequenas cidades do Noroeste do Paraná. Tese de Doutoramento em Geografia. São Paulo: Universidade Estadual Paulista.
FREITAG, Barbara (2006), Teorias da cidade. Campinas (SP): Papirus.
GOMES, Carina (2013), Cidades e Imaginários Turísticos: Um estudo sobre quatro cidades médias da Península Ibérica. Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra: Tese de Doutoramento em Sociologia - Cidades e Culturas Urbanas.
Hogan, Kathleen M. (2011), “Robert Owen and New Harmony”.
HORTA, Ana Paula (2007), Sociologia Urbana. Lisboa: Universidade Aberta.
MELA, Alfredo (1999), A Sociologia das Cidades. Lisboa: Estampa.
RÉMY, Jean; VOYÉ, Liliane (1994), A cidade: rumo a uma nova definição?. Porto: Afrontamento.
REPS, John W. (s/d), “Modern Sanitary Science –A City of Health”.
ROQUES, Jean-Luc (2009), La fin des petites villes: Une modernité envahissante. Paris: L’Harmattan.
Vancouver Working Group Discussion Papers for the World Urban Forum (2005), “The Impact of the Ideal City”, in The Ideal City. Vancouver: University of British Columbia.
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