segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Cidades e Imaginários Turísticos. Apresentação em Prova Pública de Doutoramento

Cidades e Imaginários Turísticos: 
Um estudo sobre quatro cidades médias da Península Ibérica
Texto da apresentação inicial nas provas públicas para a obtenção do Grau de Doutor, realizadas a 30 de julho de 2013, Sala dos Capelos, Universidade de Coimbra

Carina Gomes






(1) O TEMA E OS OBJETIVOS DA INVESTIGAÇÃO

Em 1938, Louis Wirth afirmava que as cidades não eram apenas o lugar de habitação e trabalho dos indivíduos modernos mas também “o centro que põe em marcha e controla a vida económica, política e cultural”. Por essa razão, argumentava que o crescimento das cidades e a urbanização do mundo representavam “dos fenómenos mais impressionantes do mundo moderno” (Wirth, 2001: 45). Desde os seus escritos que a importância e o protagonismo das cidades e, sobretudo, das megacidades e metrópoles globais, não parou de crescer. 

Na verdade, são essas grandes cidades de influência mundial que mais vêm impressionando e marcando os discursos das ciências sociais e, em particular, dos estudos urbanos.

Contrariando tal tendência, este trabalho teve como objeto empírico quatro cidades médias da Península Ibérica que ocupam uma condição periférica nos fluxos económicos, políticos e culturais globais. 

Centrando-se em Braga, Coimbra, Salamanca e Santiago de Compostela, a tese analisa o estatuto e o papel do turismo na reconfiguração socioeconómica, cultural e identitária dos espaços urbanos, abordando os modos como, ao ampliar a sua reputação externa, o fenómeno turístico contribui para o engrandecimento das cidades. 

Sendo encarado como um fator decisivo na reorganização dos territórios e na redefinição de políticas de planeamento e desenvolvimento urbano, sobretudo pelas expectativas de regeneração das paisagens e de revitalização económica das cidades, o turismo vem sendo perspetivado, do lado dos poderes públicos locais, como o caminho mais promissor para tão desejado engrandecimento.

Face a este cenário, os objetivos principais do trabalho consistiram, em primeiro lugar, em desenvolver uma abordagem acerca das funções, das possibilidades e dos desafios que o fenómeno turístico encerra nas quatro cidades ibéricas; e, daqui decorrente, em compreender as formas de negociação, produção e difusão dos imaginários turísticos das cidades. 

A análise procurou mostrar que as cidades turísticas não devem ser entendidas apenas como reflexo dos espaços urbanos que estão na sua origem, devendo ser interpretadas, simultaneamente, como resultado dos processos, das relações e das estratégias gerados no decurso da conceção e promoção de um lugar como destino turístico.



(2) O DESAFIO SOCIOLÓGICO: A ESTRATÉGIA DE PESQUISA

Em virtude do quadro de interrogação delineado, optou-se por uma estratégia metodológica multifacetada, capaz de captar a complexidade: 

     (1) dos processos inerentes à conceção das cidades turísticas;

     (2) da rede de intervenientes que concorrem para a sua produção, difusão e consumo;

     (3) e das dimensões imagéticas e simbólicas associadas ao objeto empírico.

Privilegiou-se uma abordagem de cariz qualitativo, cuja concretização foi possível, sobretudo, através da presença prolongada nas cidades em estudo, que possibilitou a aquisição de um conhecimento profundo acerca das realidades estudadas e a aproximação aos diversos tipos de atores envolvidos nas distintas fases da produção das cidades turísticas. 

Por outro lado, a presença prolongada nas cidades permitiu também a observação sistemática dos contextos e do desenrolar de uma série de experiências turísticas que, de outra forma, não teriam sido apreendidas. 

O recurso aos dois quadros teóricos resgatados para este trabalho permitiu dar conta da complexidade associada à produção turística dos lugares.

Por um lado, a noção de paisagens turísticas, conceptualizada por Réne van der Duim (2005 e 2007) possibilitou um entendimento diferenciado do setor turístico em cada cidade, ao remeter para a multiplicidade de perspetivas resultantes da variedade de atores envolvidos, das relações de cooperação ou de conflitualidade que daí resultam e dos objetos convocados para a idealização dos destinos turísticos.

Por outro lado, a inspiração no quadro teórico das ordens de grandeza, desenvolvido por Luc Boltanski e Laurent Thévenot (1991 e 1999), permitiu revelar as diversas modalidades a partir das quais se podem avaliar as grandezas das cidades e, portanto, os seus posicionamentos, os sucessos e resultados atingidos. 



(3) CONCLUSÕES DO ESTUDO

Deste quadro de questionamento, resultou um conjunto de conclusões que respondem às hipóteses de trabalho inicialmente postuladas no trabalho. Gostaria, agora, de sintetizá-las.

1. A primeira conclusão remete para o turismo como uma atividade desenvolvida por um conjunto diverso de atores que manifestam interesses, estratégias e racionalidades nem sempre coincidentes.

Em cada cidade, o setor está dependente das administrações públicas municipais, a que se juntam as entidades regionais, responsáveis diretas pela promoção institucional dos destinos. Por outro lado, interferem os atores económicos da hotelaria, restauração e comércio e, do exterior, de fora das cidades, os profissionais das agências de viagens e operadores turísticos.

O estudo permitiu destacar a multiplicidade de modos de trabalho desses profissionais, associados às funções de intermediação entre os lugares, os seus significados, os visitantes e as experiências turísticas. 

Tal atividade é ancorada em competências especializadas e justificada por racionalidades técnicas. No entanto, amiúde, está também condicionada por retóricas e planos de ação e gestão administrativa. Não raramente, interferem ainda as subjetividades e idiossincrasias pessoais dos atores envolvidos e a sua capacidade para estabelecer parcerias, concertar interesses e negociar a atribuição de sentidos às cidades.


2. Daqui decorre uma segunda conclusão que aponta justamente para as dimensões simbólicas inerentes aos modos de trabalho dos atores identificados. 

Da articulação entre as ações desenvolvidas por esses atores, as suas lógicas de atuação e os seus interesses resultam, forçosamente, visões polissémicas e fluídas das cidades. A multiplicidade de sentidos que lhes são atribuídos é claramente observável nos discursos desses profissionais, bem como nas narrativas que usam para a sua promoção.

Em Coimbra e em Salamanca, é a imagem de cidade universitária que se sobrepõe, sendo concebida a partir da antiguidade e monumentalidade das instituições, do ambiente estudantil peculiar, da animação da vida noturna, das tradições da vida académica e do cosmopolitismo proporcionado pela presença universitária. Já em Braga e Santiago de Compostela é a cidade religiosa que se afirma, através da importância destes lugares na hierarquia da Igreja Católica, mas também devido à monumentalidade religiosa, à espiritualidade e aos fenómenos de peregrinação e, no caso particular de Compostela, aos Caminhos de Santiago.

Apesar do relevo inequívoco destas duas dimensões, outros aspetos compõem também os imaginários turísticos das cidades. Em comum, elas têm o facto de a cultura universitária, no primeiro caso, e a religião, no segundo, serem recorrentemente associadas à história, ao património e à monumentalidade do espaço urbano (como os elementos que ampliam o seu interesse turístico). 

A ênfase numa historicidade plural não deixa, aliás, de retratar o posicionamento estratégico de cidades que, apesar da sua antiguidade, são promovidas como cidades turísticas modernas, acessíveis, seguras e acolhedoras. O título de Património Comum da Humanidade ganha aqui um apelo especial, na medida em que certifica a valorização turística destes locais. 

Por último, as cidades estudadas partilham imagens promocionais associadas à cultura, às tradições e ao turismo. 

Em Coimbra e em Salamanca, tanto a cultura como a tradição surgem em relação estreita com o cosmopolitismo do ambiente académico e com os rituais associados à população estudantil. 

Em Braga e em Santiago de Compostela, cultura e tradições veem o seu significado convertido na ideia de forte festividade religiosa e no imaginário de uma gastronomia ímpar. Para os discursos da promoção turística das duas cidades espanholas é ainda convocado um trunfo complementar – o facto de ambas terem sido Capitais Europeias da Cultura e, por essa via, serem apresentadas como cidades modernas e abertas ao mundo.


3. Uma terceira conclusão remete para o caráter plurifacetado e a natureza dos processos de promoção de imagens turísticas

Se tais imagens, na forma como foram explicitadas, resultam sobretudo da ação dos operadores turísticos, elas coincidem, nos seus conteúdos essenciais, com aquelas que local e regionalmente são trabalhadas pelos promotores oficiais das cidades. 

A diferença reside no seguinte: apesar da preponderância inequívoca das imagens de cidade universitária e de cidade religiosa, um dos objetivos principais dos promotores oficiais consiste na diversificação dos imaginários turísticos das cidades; pelo contrário, uma vez elaboradas as narrativas promocionais pelos operadores turísticos, dificilmente elas são objeto de revisão ou atualização, independentemente das mudanças que efetivamente ocorrem na oferta turística local (quer se trate da ampliação ou do desaparecimento de algum tipo de oferta).

Este desencontro traduz, na verdade, a divergência de interesses profissionais, económicos, sociais e políticos entre os atores envolvidos, resultando igualmente das condições distintas em que desenvolvem as suas atividades profissionais. 


4. Finalmente, uma última conclusão do trabalho relaciona-se com as experiências turísticas in situ 

Em conjunto, o trabalho realizado pelos profissionais ligados ao poder público local e regional, mas também pelos atores económicos da hotelaria, restauração e comércio e pelos agentes de viagens e operadores turísticos, representa o lado mais normalizado, institucional ou empresarial do turismo. Mas as imagens turísticas das cidades não dependem apenas desse trabalho. 

Mostrou-se, na verdade, a interferência de outros atores e objetos nesse processo. 

Desde logo, os guias turísticos de viagem, cuja importância começa a fazer-se sentir na preparação da experiência turística mas que estendem a sua ação enquanto meios de orientação dos visitantes in situ. 

Substituem-se, deste modo, aos guias-intérpretes, cuja ação foi também perspetivada na ótica dos processos e dos contextos que a enquadram. Beneficiando de um elevado nível de autonomia no seu trabalho, os guias-intérpretes apresentam as cidades como destinos estimulantes, filtram a informação transmitida e revestem os lugares com descrições diversas (mitos, lendas e outras curiosidades) que acabam por marcar inequivocamente as imagens turísticas dos destinos. 

O uso de guias de viagem ou o recurso a guias-intérpretes não invalidam, todavia, a opção por outras experiências orientadas, como as visitas turísticas panorâmicas. 

A representação cartográfica destes percursos, conjuntamente com os locais destacados pelos diversos intervenientes no setor, dá conta do caráter manifestamente restrito e resumido das cidades turísticas. 

Essa mesma delimitação remete para as fronteiras simbólicas, geográficas e políticas que separam a cidade figurada da cidade desfigurada, para usar a terminologia de Christine Boyer. Daqui decorre que, nos processos de reprodução das cidades turísticas, não interferem apenas os lugares visitados e as narrativas difundidas, importam também os lugares evitados e as histórias invisibilizadas.

Uma discussão deste tipo aponta, naturalmente, para os modos como os resultados das atividades profissionais antes enunciadas são percecionados pelos consumidores da cidade turística. Embora não se trate aqui de reproduções automáticas desse trabalho, os visitantes das quatro cidades assinalam o reconhecimento e a importância concedida, nas suas próprias imagens mentais, às dimensões historicamente mais consolidadas e profissionalmente mais difundidas sobre os lugares visitados. Reproduzem-se, assim, as visões mais estereotipadas sobre as quatro cidades.


(4) O CONTRIBUTO DA TESE

Para terminar esta intervenção inicial, gostaria apenas de esclarecer que grande parte dos estudos de turismo centra-se na ótica dos visitantes, elaborando a sua caracterização socioeconómica e demográfica e enfatizando modalidades de organização da visita, padrões de estadia nos destinos e avaliações acerca dos locais visitados. 

Não subtraindo a importância destes protagonistas na investigação, a opção teórico-metodológica deste trabalho foi outra, centrando-se do lado dos organizadores, gestores e produtores do turismo.

Embora se tenha dado voz também aos visitantes das quatro cidades, este trabalho privilegiou uma visão integrada do lado da estruturação do setor turístico. Tal opção possibilitou que se percebessem os modos de negociação de sentidos para as cidades; os processos que estão por detrás da construção dos imaginários turísticos que todos reconhecemos; e, de forma mais ampla, as formas como as cidades lidam com os seus próprios passados e memórias e os projetam para o futuro. 

Por esta via, o trabalho abriu também novas possibilidades de investigação, revelando outros desafios e novas interrogações a aguardar problematização.



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