quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

História do turismo

Breve história do turismo moderno e a sua relação com as cidades.

As atividades turísticas e de lazer vêm conquistando, ao longo das últimas décadas, um valor crescente na vida das populações ocidentais, constituindo dimensões verdadeiramente importantes da vida moderna. A par da importância que adquirem na formação dos estilos de vida das pessoas e dos grupos sociais, os fenómenos do lazer e do turismo vêm-se revelando fatores decisivos de reorganização dos territórios, das condições de ordenamento do espaço, das políticas de planeamento e desenvolvimento, com uma especial visibilidade nos espaços urbanos.
Revelando boas perspetivas de expansão futura, o setor turístico alimenta uma série de outras áreas de atividade económica, constituindo um verdadeiro fator de desenvolvimento económico de muitas regiões de destino. Na sua esfera de produção autónoma, intervêm atores económicos específicos, que organizam o setor e medeiam a relação entre os locais visitados, os turistas e as suas experiências, num trabalho constante de (re)tradução simbólica para apresentação dos lugares de forma atrativa.
Apesar da sua importância enquanto fenómeno económico e sociocultural, só recentemente o turismo começou a merecer uma atenção científica mais dedicada por parte da sociologia. Essa atenção recente está relacionada com o caráter também recente da atenção sociológica aos fenómenos do lazer, do consumo e do tempo livre. Após a 2ª Guerra Mundial, o crescimento das atividades turísticas e o desenvolvimento dos serviços associados a essas atividades, provocados pela elevação dos níveis de vida e pela alteração dos padrões de consumo no mundo ocidental (cf. Dumazedier, 1979), despertaram a atenção sociológica para o campo do não-trabalho. Os fenómenos do lazer e as práticas turísticas passaram, então, a ser abrangidos pelas novas áreas de investigação sociológica.

Barcelona. Foto da Autora.
Embora tratando-se de um fenómeno complexo e multifacetado, existem alguns pontos comuns às práticas turísticas, que J. Urry (1990: 2-4) enumera. Em primeiro lugar, o turismo constitui uma atividade de lazer que pressupõe a atividade inversa, ou seja, o trabalho regulado e organizado. Envolve o movimento de pessoas no espaço e um período de permanência fora dos lugares habituais de trabalho e residência. Por outro lado, uma proporção considerável da população das sociedades modernas aventura-se em práticas turísticas, selecionando os lugares com base numa antecipação de prazeres diversos, incorporando na prática turística uma componente de fantasia e devaneio. Essa antecipação é construída, no entanto, por uma variedade de práticas não turísticas, aspeto relacionado, por fim, com o desenvolvimento de fileiras de profissionais do turismo, que desenvolvem trabalho de constante produção de novos elementos para fruição turística.
Por vários motivos, entre os quais destaco, por um lado, a sua importância enquanto dimensão das identidades e da manifestação dos estilos de vida dos indivíduos e, por outro, o cariz simbólico da exibição de lugares ao exterior, as práticas turísticas e, de forma mais ampla, o setor turístico, assumem-se como um campo especialmente rico para a investigação sociológica. Porque a atividade turística “põe em jogo complexos processos de negociação de sentidos entre os turistas e as populações nativas, por um lado, e entre os turistas e os ambientes visitados, por outro lado” (Fortuna e Ferreira, 1996: 12), uma sociologia do turismo dificilmente escapará a uma incursão pela relação entre o fenómeno turístico e o “elemento aurático dos objectos e lugares singulares” (Fortuna, 1999: 57).
Recuando na história da Europa, o Grand Tour é identificado pela generalidade dos estudos históricos como um marco essencial na emergência do turismo moderno, tendo promovido a descoberta do prazer pelas viagens como uma experiência pessoal nobre e enriquecedora. Estas viagens compreendiam objetivos simultaneamente lúdicos e pedagógicos, que passavam não só pela aprendizagem de línguas estrangeiras, mas também pela observação de costumes, pela aquisição de obras de arte e pela visita a monumentos. A prática foi estabelecida pelos filhos da aristocracia nos finais do séc. XVII, constituindo-se como um complemento indispensável à educação de um gentleman (Corbin, 1995: 30-65; Dias, 2003: 45; Urbain, 1991: 28), e generalizou-se, no decurso dos séculos seguintes, às novas classes burguesas em ascensão.
A expressão faire le grand tour, de origem francesa, já se usava em Inglaterra, no séc. XVIII, para designar os percursos empreendidos pelos jovens aristocratas, que começaram a ser denominados de turistas. Progressivamente, o termo turismo foi sendo adotado noutros países, para referir as “viagens sem objectivo lucrativo, que ocorriam com o objectivo de distracção, descanso, busca de tratamento de saúde, satisfação da curiosidade cultural, desejo de conhecer outros lugares e costumes” (Dias, 2003: 46).
Os ideais românticos e os movimentos artístico e intelectual influenciaram bastante o comportamento das classes mais favorecidas. Através das viagens, a elevação dos valores culturais e românticos evoluiu, no séc. XIX, “no sentido do aprofundamento das raízes históricas e dos traços de identidade das nações” (Neves, 2006: 21). A partir de então, o turismo difundiu-se através do alargamento das práticas antes aristocráticas às restantes camadas sociais, tornando-se as férias fora de casa, durante o séc. XX, um hábito instituído e amplamente generalizado (Ferreira, 1995: 94).
Alguns fatores intimamente relacionados com a Revolução Industrial foram decisivos para o desenvolvimento do fenómeno turístico, pelo que é legítimo afirmar que o processo de industrialização esteve na génese da transformação das viagens. Refiro-me, por um lado, ao desenvolvimento tecnológico, tanto nos transportes como nas comunicações, que facilitou um aumento generalizado da capacidade de mobilidade dos indivíduos. Por outro lado, com os processos de urbanização e com a separação entre os tempos de trabalho e de não-trabalho, libertou-se tempo aos trabalhadores para descanso ou atividades de lazer. O estudo de N. McKendrick, J. Brewer e J. H. Plumb (1982) aponta, precisamente, neste sentido, mostrando que, para além de uma revolução nas formas de produção, a Revolução Industrial representou uma revolução dos hábitos de consumo, geradora de uma atitude consumista até aí desconhecida.
As mudanças ocorridas não se restringiram, portanto, a um cariz tecnológico e social. Elas foram, também, como salientam S. Lash e J. Urry (1994), de natureza organizacional. Em pleno período de expansão de novos hábitos de lazer e de formação de um novo universo de oferta, no qual o turismo vai conquistando um lugar proeminente, vai-se estruturando um novo formato organizacional, que conduzirá ao modelo do turismo de massas organizado de que falam Lash e Urry.

Thomas Cook. Foto de domínio público.
Thomas Cook é uma figura referencial nesta mudança organizacional. Em 1841, organizou uma viagem de comboio, entre as cidades inglesas de Leicester e Loughborough, para levar um grupo de participantes a um encontro médico, organizando assim o que poderá ser entendido como uma excursão. Cook intensificou as suas relações comerciais com a implantação da Thomas Cook & Son, a primeira grande agência de viagens, o primeiro grande operador turístico e a primeira empresa a formar profissionais especializados nas áreas das viagens e do turismo. Thomas Cook rapidamente se apercebeu do potencial dos caminhos-de-ferro, que encarava como uma força democrática e progressiva. 

Cook conseguiu vulgarizar as viagens a baixo preço, começando com a sua primeira excursão profissional a Caenarvon, Snowdon e Liverpool, em 1845. Paralelamente, Cook percebeu que as atividades turísticas beneficiariam com a existência de alguns mitos capazes de atrair visitantes. Nos locais visitados, fornecia guias que indicavam os elementos que os visitantes deveriam ver e a forma como aqueles deveriam ser interpretados (Corbin ,1995; Urbain, 1991; Urry, 1990).
As primeiras décadas do séc. XX foram marcadas pela força reivindicativa do movimento operário, que viria a consolidar-se entre as duas guerras mundiais, embora as férias não figurassem entre as prioridades dos sindicatos. O conflito proporcionou um desenvolvimento técnico rápido e foi nesse momento que a atividade turística se ampliou, à medida que os países industrializados iam reconhecendo aos trabalhadores o direito a um descanso remunerado (Porter, 1995: 26-27; Neves, 2006: 23). Em 1936, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Convenção n.º 52, estabeleceu que qualquer pessoa empregada, no sector público ou privado, deveria ter direito, após um ano de trabalho, a férias pagas de pelo menos seis dias úteis (OIT, 2008 [1936]). Vista como uma conquista proletária ou como consequência de uma lógica interna em que o tempo de trabalho teria engendrado, ele próprio, a sua redução, a verdade é que, em resultado de reivindicações e conflitos, de legislação e de difusão das normas recentes, o tempo livre passou a constituir-se como novo tempo social com configurações específicas (cf. Corbin, 1995).
Mas só após a 2ª Guerra Mundial o turismo alcançou uma amplitude sem precedentes. Foi nesse momento, aliás, que os Estados legislaram, explicitamente, sobre o período obrigatório de férias. Neste sentido, a redução do tempo de trabalho associada à conquista do direito a férias pagas permitiram, gradualmente, o acesso das classes médias e operária ao turismo (cf. Dumazedier, 1988). Por outras palavras, “os modos de organização política e social do trabalho foram responsáveis pelo crescimento e democratização do acesso ao turismo, à medida que permitiram o aumento dos tempos livres dos trabalhadores e fomentaram a ideologia das férias” (Fortuna e Ferreira, 1996: 3). As férias tornaram-se, então, quase uma marca de cidadania, uma das componentes da cidadania social que, como refere B. Turner (1986), se foi alargando ao longo do séc. XX, em resultado das lutas da classe trabalhadora, das organizações sindicais e dos efeitos da democracia social.
A partir de 1945, teve início um novo período de revolução tecnológica, relacionada com a integração de novos meios de transporte na indústria turística, pelo que tanto o número de destinos turísticos aumentou como os serviços associados à indústria se internacionalizaram. Esse novo período envolveu grandes alterações associadas a um desenvolvimento industrial em massa, mas também mudanças socioeconómicas relacionadas com a elevação do poder de compra e com a consolidação de uma sociedade de consumo de massas (Silva, 2002: 55 e 123).
Ao analisar as relações que se estabelecem entre capitalismo, turismo e viagem, S. Lash e J. Urry sustentam que a cada fase de capitalismo correspondem tipos predominantes de turismo e viagem. Argumentam que a transição do capitalismo liberal de meados do séc. XIX, para o capitalismo organizado ou fordista, no séc. XX, permitiu uma transição equivalente da viagem individual feita pelos mais ricos para um turismo de massas organizado (Lash e Urry, 1994: 258-9; Fortuna e Ferreira, 1996: 3). A atividade turística passava, então, a ser definida pelos critérios ocidentais e europeus. Este turismo organizado adotou a forma predominante de pacotes de férias, padrão para o qual muito contribuíram os operadores turísticos em emergência, fazendo um uso excecional das novas tecnologias, dos transportes aéreos e dos sistemas eletrónicos de reservas.
Em nova fase de transição, para o chamado capitalismo desorganizado, o turismo tornou-se, segundo Lash e Urry, também ele, desorganizado. Nesta nova forma de capitalismo, que envolve o domínio das formas de produção não-materiais e, em especial, de imagens, há uma importância acrescida das componentes simbólicas incorporadas na produção. Trata-se de um tipo de capitalismo em que predominam a cultura, o consumo, o global, o local e a preocupação com o ambiente, elementos característicos da viagem contemporânea. O capitalismo desorganizado parece ser, então, a época na qual a especificidade do turismo, tal como se definiu na fase anterior, se dissolve (Lash e Urry, 1994: 259). A par do turismo de massas, os mercados turísticos segmentam-se, dando lugar a diferentes tipos de ofertas e a diferentes tipos de públicos, muitas vezes com gostos voláteis, bem como a experiências turísticas múltiplas.

Referências Bibliográficas:
Corbin, Alain (1995), “A fadiga, o repouso e a conquista do tempo”, in Corbin, Alain (1995), História dos Tempos Livres. Lisboa: Editorial Teorema, Lda., 334-361.
Dias, Reinaldo (2003), Sociologia do Turismo. São Paulo: Editora Atlas S.A.
Dumazedier, Joffre (1988), La Révolution Culturelle du Temps Libre, 1968-1988. Paris : Méridiens Klincksieck.
Dumazedier, Joffre (1979), Sociologia Empírica do Lazer. São Paulo: Perspectiva.
Ferreira, Claudino (1995), “Estilos de Vida, Práticas e Representações Sociais dos Termalistas. O caso das termas da Curia”, Revista Crítica de Ciências Sociais, n.º 43, 93-122. Fortuna, Carlos (1999), Identidades, Percursos, Paisagens Culturais: Estudos Sociológicos de Cultura Urbana. Oeiras: Celta Editora.
Fortuna, Carlos; Ferreira, Claudino (1996), “O turismo, o turista e a (pós)modernidade”, Oficina do CES, n.º 80.
Lash, Scott; Urry, John (1994), Economies of Signs & Space. London: Sage Publications.
McKendrick, Neil; Brewer, John; Plumb, J. H. (1982), The Birth of a Consumer Society. The Commercialization of Eighteenth-century England. Londres: Europa Publications Limited.
Neves, Carmen (2006), Ecoturismo: um contributo para o desenvolvimento sustentável de Marvão. Dissertação de Mestrado em Ecologia Humana e Problemas Sociais Contemporâneos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
OIT (1936), C52 Holidays with Pay Convention, 1936. Disponível a 16 de Março de 2008 em http://www.oit.org/ilolex/english/convdisp1.htm.
Porter, Roy (1995), “Os Ingleses e o lazer”, in Corbin, Alain (1995), História dos Tempos Livres. Lisboa: Editorial Teorema, Lda., 21-58.Urbain, Jean-Didier (1991), L’idiot du voyage. Histoires de touristes. Paris : PLON.
Silva, Augusto Santos (2002), Dinâmicas sociais do nosso tempo. Porto: Editora da Universidade do Porto.
Turner, Bryan S. (1986), Citizenship and Capitalism. The Debate Over Reformism. London: Allen & Unwin, Ltd.
Urry, John (1990), The Tourist Gaze: Leisure and travel in contemporary societies. London: Sage Publications.



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