terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Turismo e cidades

Pretende-se que esta plataforma constitua um lugar de reflexão acerca das potencialidades que o turismo encerra para as cidades, principalmente para as de pequena e média dimensão, habitualmente ausentes ou menosprezadas pela literatura globalizada dos estudos urbanos no mundo ocidental. 
 

Universidade de Salamanca. Foto da Autora.
Num momento de crescente competição intercidades, pretende-se também refletir sobre o universo turístico das cidades, sobre as imagens e narrativas que o turismo re-recria e veicula sobre elas e, finalmente, sobre aquilo que o turismo esconde - lugares, memórias, personagens - quando revela determinadas partes da cidade. 
Em qualquer cidade, o fenómeno turístico produz sempre cidades turísticas ao mesmo tempo que, por omissão de elementos da cidade real, cria invisibilidades urbanas.

Os modos como as cidades usam e re-atualizam as suas imagens e significados, e os transformam em instrumentos ativos de estratégias de promoção e desenvolvimento económico urbano, revelam a centralidade que o turismo vem adquirindo, nas últimas décadas, na vida das populações ocidentais mas também como fator decisivo na reorganização dos territórios, nas condições de ordenamento do espaço, nas políticas de planeamento e desenvolvimento, com um especial impacto nos espaços urbanos. o turismo conta com a intervenção de um conjunto de atores que organizam o setor e medeiam a relação entre os locais, os turistas e as suas experiências, atuando fortemente sobre a dimensão imagética e a memória das cidades.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 comentários:

  1. Uma interessante reflexão que extraí de seu texto levou-me a pensar em alguns aspectos do turismo na cidade Ouro Preto: “Em qualquer cidade, o fenómeno turístico produz sempre cidades turísticas ao mesmo tempo que, por omissão de elementos da cidade real, cria invisibilidades urbanas”. Ressalto algumas contradições.

    Atualmente a produção socioespacial de Ouro Preto é fortemente marcada pelo turismo e pela intensificação do consumo cultural e redes virtuais de comunicação, das ofertas de bens e serviços etc. São diversas as atrações turísticas voltadas para diferentes grupos: o turismo das agências de viagens, o turismo relacionado às festividades e eventos da cidade, e o turismo “estudantil”. Este último sendo muito interessante, pois promove às Repúblicas Estudantis certa autonomia na promoção turística da cidade e de eventos próprios dos estudantes através de redes sociais. Além disso, o turismo começa a ser uma alternativa à cidade monumento, empregando importante parcela da mão de obra local.

    Entretanto, estes elementos parecem dar conta do que vem a ser o cotidiano da cidade. O foco turístico ressalta a monumentalidade de seu centro histórico em que as políticas públicas urbanas em Ouro Preto empreenderam ao patrimônio sentido mercadológico, com alterações à espacialidade dos usos residenciais do centro para uso comercial, ocorrendo forte especulação imobiliária na cidade.

    Também como consequência do crescimento populacional nos últimos anos e do fluxo de pessoas a exclusão social aumentou, mas que foi gerada primeiramente a partir da patrimonialização da cidade, e em consequência do próprio turismo. Algo que atinge a grande maioria dos moradores, entre estudantes e moradores “nativos”, é o alto custo do consumo cultural ouro-pretano, pois muitos serviços e oferta de bens tornaram-se caros, sendo prioritariamente voltados para o turismo.

    Os estudos acadêmicos sobre Ouro Preto pouco destacaram análises sobre modos de vida na cidade (cultura estudantil e vida juvenil), desigualdades e fronteiras sociais (muitos moradores da cidade moram nos morros sem infraestrutura urbana adequada). Além desses aspectos, muitos conflitos ocorrem devido às transformações cotidianas com o crescimento da Universidade Federal de Ouro Preto e o aumento do número de estudantes e de repúblicas na cidade. Com a forte presença e usos dos espaços pelos estudantes para festas e eventos, os conflitos entre “estudantes” e “moradores nativos” deve-se também em razão das diferenças dos modos de vida.

    Abraços,
    Eder C. Malta Souza

    ResponderEliminar
  2. Eder,
    obrigada pelo comentário que, além de instigante, levanta muitas questões diferentes. Em primeiro lugar, o aproveitamento ou, melhor, a incorporação das repúblicas estudantis nos roteiros turísticos. É um fenómeno que, como sabes, não acontece em Coimbra. Curiosamente, num artigo que eu e o Professor Carlos Fortuna publicámos na Revista TOMO 16 (http://200.17.141.110/pos/sociologia/down/Revista_TOMO-n16.pdf), propomos a criação de um "safari cultural de Coimbra", que passaria, entre outras atrações, pelos estudantes universitários e pelas Repúblicas.
    Em segundo lugar, falas das intervenções que vêm sendo feitas nas cidades, mais para o consumo turístico ou para o consumo cultural dos visitantes do que propriamente para os residentes. Sabemos que tem sido uma prática corrente da gestão urbana de muitas cidades.
    Finalmente, referes-te à excessiva monumentalidade que, por vezes, caracteriza as estratégias de promoção turística. Apesar de concordar em absoluto contigo, parece-me que em determinadas cidades essa estratégia tem vindo a ser complementada com a incorporação de outras atrações que, no entanto, têm geralmente pouco que ver com a história ou a tradição da cidade. Com aquilo que, sabendo a complexidade deste conceito, tem que ver com a identidade da cidade. Se puderes, espreita o que tenho escrito aqui sobre a cidade de Guimarães que, para além de ser uma cidade marcadamente histórica, é este ano Capital Europeia da Cultura, será provavelmente Cidade Europeia do Desporto no próximo ano e até criou agora circuitos pelo seu património industrial. Não há dúvidas de que se trata de diversificação da oferta mas talvez seja interessante perceber até que ponto estas diferentes ofertas são, em conjunto, coerentes.
    Abraços,

    Carina Gomes

    ResponderEliminar

Não hesite em deixar o seu comentário. Obrigada.